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ATENDIMENTO


Defensoria atende mães de crianças atípicas e orienta sobre acesso ao SUS

Ação realizada na EMEB Irmã Maria Betty reuniu serviços jurídicos e de saúde e buscou facilitar o acesso de famílias a atendimentos especializados

Por Marcia Olivera
17 de de 2026 - 15:31
Defensoria atende mães de crianças atípicas e orienta sobre acesso ao SUS


A Defensoria Pública do Estado de Mato Grosso (DPEMT) atendeu, no sábado (15), mães e familiares de crianças e adolescentes neurodivergentes durante ação social realizada na Escola Municipal de Educação Básica Irmã Maria Betty de Souza Pires, no bairro Novo Mato Grosso, em Cuiabá. Das 7h30 às 11h30, a instituição prestou orientação jurídica, esclareceu dúvidas e realizou encaminhamentos para auxiliar famílias que enfrentam dificuldades de acesso a diagnóstico, acompanhamento e tratamento especializado pela rede pública de saúde. 

A atuação da Defensoria integrou o Projeto Social Mãe Atípica, que reuniu instituições e profissionais para oferecer atendimento às famílias da região. Além da assistência jurídica, a ação disponibilizou 60 atendimentos em áreas como optometria, fonoaudiologia, psicologia, clínica-geral, medicina da família e odontologia, além de exames de eletrocardiograma e radiografia panorâmica.

Entre as principais demandas apresentadas à Defensoria estavam dificuldades para conseguir consultas e tratamentos nas áreas de neurologia, psicologia, psicopedagogia e fonoaudiologia, especialidades essenciais tanto para a investigação diagnóstica quanto para o acompanhamento e tratamento de crianças e adolescentes com transtornos do neurodesenvolvimento. 

O coordenador do Grupo de Atuação Estratégica em Saúde Mental (Gaedic/Saúde Mental), Dennis Thomaz Rodrigues, informou que as famílias receberam todos os tipos de orientação e atendimento jurídico para que tenham acesso aos serviços de saúde e quaisquer outros que possibilitem o melhor tratamento para os filhos.  “A demanda por diagnóstico e tratamento de crianças e adolescentes atípicas é crescente e essas famílias encontram inúmeras dificuldades para conseguir identificar o problema e tratá-lo. Para esses casos, a Defensoria Pública existe e tem uma equipe apta a dar andamento em suas necessidades”, explicou o defensor.

Espera - Para a diretora da EMEB Irmã Maria Betty, Flávia Fernanda de Magalhães, ações como essa são especialmente importantes diante da realidade socioeconômica da comunidade e das dificuldades enfrentadas pelas famílias para conseguir atendimento especializado. “Nós recebemos o Projeto Social Mãe Atípica com muito carinho por conta de uma necessidade que temos em nossa comunidade. Percebemos, por meio das nossas crianças, o quanto esse serviço se faz necessário”, afirmou. 

A escola atende crianças de quatro a 11 anos e, segundo a diretora, os profissionais ficam atentos quando identificam atrasos no desenvolvimento ou outras características que possam indicar a necessidade de uma avaliação especializada. “Precisamos de neurologistas, psicólogos, fonoaudiólogos e psicoterapeutas. Desde o TEA até outros transtornos e deficiências, conseguimos perceber sinais aqui. Como estamos em uma comunidade muito carente, as famílias dependem da rede pública, e há crianças que chegam a esperar até três, quatro anos por uma psicoterapia”, relatou. 

Para Flávia, reunir diferentes serviços em um mesmo local amplia as possibilidades para famílias que ainda estão no início da investigação sobre o desenvolvimento dos filhos. “Muitos precisam dessa investigação para conseguir um desenvolvimento pleno. E ter a Defensoria Pública aqui é muito importante porque temos a certeza de que a instituição está de braços abertos para acolhê-los”, completou.

A moradora do bairro Dr. Fábio II, Gilmara Lima Oliveira, procurou atendimento da Defensoria porque seus dois filhos, diagnosticados com Transtorno do Espectro Autista (TEA), estão sem o acompanhamento que precisam. “Vim procurar a Defensoria Pública porque tenho dois filhos autistas de nível 1 de suporte e eles estão sem acompanhamento de psicólogo, de neurologista e de psicopedagogo”. 

Gilmara conta que a filha de 15 anos estava recebendo acompanhamento psicológico semanal. Mas, o contrato do Governo terminou e o novo local até o momento não conseguiu prestar o serviço com a continuidade exigida para o caso. “Quando ela fica sem o tratamento, fica isolada, sem ânimo, sem disposição e tem dificuldade para se expressar e se impor. E o meu filho de dez anos, ainda não conseguiu acompanhamento para definir o tratamento pelo SUS”, relatou. Situações como a vivenciada pela família estão entre as que a Defensoria pode auxiliar por meio administrativo e jurídico, caso o serviço não seja reestabelecido.

Obra Social Autista Maternidade Atípica  -  A presidente da associação, Julien Steffani Carmo, afirma que iniciou o serviço voluntário após diagnosticar os quatro filhos com autismo, TDAH, dislexia e outras deficiências. Ao contar com ajuda de pessoas e instituições, virou referência na comunidade e passou a prestar auxílio voluntário, por entender a dificuldade que existe para alcançar o diagnóstico e o tratamento. “Esse evento foi pensado para atender, acolher e abrir acesso das famílias para os serviços. Oferecemos atendimento jurídico, com a Defensoria Pública e atendimentos de fonoaudiologia, odontologia e psicologia. Sou mãe de quatro e vivo as dificuldades na pele, sei o que essas mães e essas famílias passam todos os dias. Por isso, sempre com apoio voluntário, decidimos ajudar. Daqui até o final do ano pretendemos levar o atendimento ao total de dez escolas”, afirmou.

Ela relata que começou a investigar a situação dos filhos após o de nove anos, apresentar crises de epilepsia e convulsões. Na época, Julien tinha um salão de beleza e teve que deixar o trabalho para se dedicar ao filho. “A partir da investigação dele, que tem autismo nível 3, não-verbal e epilepsia, os médicos passaram a questionar se os outros tinham alguma coisa. E descobrimos que minha filha de 19 anos é autista nível 2 de suporte; outro filho de 16 anos tem TDAH e autismo e a caçula possui uma má-formação congênita, identificada após atendimento no Hospital Universitário Júlio Müller”, contou. 

O ouvidor-geral da DPEMT, Getúlio Pedroso, disse que a participação da instituição ocorreu após uma aproximação das mães com a Ouvidoria. “A Ouvidoria foi procurada pelas mães atípicas para fazer a ponte entre a Defensoria e a população, diante da dificuldade que elas encontram para ter acesso aos serviços públicos de saúde”, afirmou.

Autismo e conquistas – O evento contou com a participação do piloto de automobilismo Dimy Kalinowiski, que se apresenta como o primeiro piloto de corrida autista do país e o único federado. Com nível 2 de suporte, ele disputa competições de kart e de outras categorias e relatou às famílias como receber o diagnóstico o ajudou a compreender características que o acompanharam durante anos. “O diagnóstico demorou muito. Foram anos percebendo que eu era diferente por alguma razão. Quando veio, explicou os motivos de muita coisa e me ajudou a me entender melhor”, contou. 

Dimy relata que tem dificuldade na interação social, sensibilidade aumentada à luz, ao som e ao toque. No automobilismo, porém, encontrou uma atividade na qual conseguiu desenvolver suas habilidades com excelência. “Antes do diagnóstico, eu tentava fazer algumas coisas e nada dava certo. Era ruim na escola, no futebol e em outras atividades que tentei. Mas, depois que comecei a dirigir kart, que era algo que eu sempre quis, descobri algo em que sou muito bom e amo fazer”, disse. 

Vice-campeão mato-grossense e campeão da Copa Campo Verde, Dimy afirmou que participou da ação para transmitir uma mensagem às crianças e às famílias neurodivergentes. “Muitos duvidavam que eu conseguiria fazer alguma coisa e chegar onde cheguei. Vir aqui é importante para mostrar que ser autista não nos impede de fazer algo bem. Um autista pode muito”, concluiu. 

O defensor Dennis contou com o trabalho das servidoras Claudenilde Lopes, Tatiana da Silva e Tainá de Oliveira para o atendimento no evento.