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AÇÃO ITINERANTE


Defensorias do Araguaia inicia 3ª edição com atendimentos em aldeia no Tocantins

Projeto leva serviços jurídicos e cidadania à população indígena na Aldeia Santa Isabel do Morro, na Ilha do Bananal

Por Barbara Argôlo
01 de de 2026 - 17:16
Defensorias do Araguaia inicia 3ª edição com atendimentos em aldeia no Tocantins


Teve início nesta quarta-feira (1º) a 3ª edição do projeto Defensorias do Araguaia, com atendimentos realizados na Aldeia Santa Isabel do Morro, localizada na Ilha do Bananal (TO). A iniciativa reúne as Defensorias Públicas de Mato Grosso, Goiás e Tocantins, além de diversos órgãos parceiros, com o objetivo de ampliar o acesso à justiça e garantir os direitos às comunidades indígenas em territórios de difícil acesso.

Logo na abertura das atividades, o coordenador do projeto em Mato Grosso, o defensor público Clodoaldo Queiroz, destacou a importância da articulação institucional para viabilizar as ações. "Esse tipo de trabalho só é possível quando há união de esforços. Temos aqui diversos parceiros, como INSS, Receita Federal e outros órgãos, além das Defensorias estaduais e da União. Mesmo com limitações, já estamos na terceira edição e buscamos ampliar cada vez mais esse atendimento", afirmou.

A defensora pública e coordenadora do projeto no Tocantins, Letícia Amorim reforçou a necessidade de presença no território para compreender a realidade das comunidades. "Para atender melhor, é preciso sentir a realidade. Isso significa percorrer os mesmos caminhos que a população enfrenta, entender as dificuldades de acesso e as barreiras geográficas, econômicas e até linguísticas. Estar aqui hoje é dar continuidade a um pedido da própria comunidade e garantir que esses direitos, que já existem, possam ser alcançados", revelou.

O defensor público e coordenador do projeto em Goiás, Breno de Araújo Assis, também ressaltou os desafios enfrentados pelas comunidades indígenas e o papel da atuação itinerante. "As dificuldades começam pelas barreiras físicas e comunicacionais. Quando a Defensoria sai dos gabinetes e chega ao território, facilita o acesso à Justiça e promove a cidadania. Além disso, conseguir identificar de perto demandas coletivas, como saúde, educação e saneamento, e atuar de forma mais eficaz", explicou.

A ação tem impacto direto na vida da população local e para o cacique Juanahu Iny Karajá, o momento é de gratidão. "É muito difícil para nossa comunidade acessar serviços em outras cidades. Hoje estamos recebendo esse atendimento dentro do nosso território, e isso é um sonho sendo realizado. Espero que esse projeto continue acontecendo todos os anos", afirmou.

Entre os diversos serviços oferecidos, histórias como a de Kussina Iara Karajá mostram, na prática, o impacto da presença da Defensoria dentro da aldeia. Aos 30 anos, ela buscou o atendimento para resolver uma situação que carregava há oito anos: o reconhecimento de sua união estável.

 Morando com o companheiro há quase uma década, Kussina relatou o desconforto de não ter sua relação reconhecida formalmente. "Eu fiquei triste quando pedia para me inscrever em alguma coisa e não podia marcar 'casada'. Era sempre 'solteira' ou 'morando junto'", contou.

A oportunidade surgiu quando soube, pelas redes sociais, que o projeto estaria na aldeia. “Eu vi que teria essa oportunidade e resolvi vir. É muito difícil pra gente sair daqui, ir até outras cidades, é uma viagem longa e cara”, explicou.

Após o atendimento, o sentimento foi de emoção e conquista. "Agora eu vou sair daqui feliz. É uma oportunidade muito grande, não só pra mim, mas pra outras pessoas da comunidade também. A gente tem muita dificuldade de acesso a serviços como esse", disse.

A história de Kussina reflete uma realidade comum na Ilha do Bananal, onde o deslocamento até centros urbanos pode levar horas, ou até dias, e envolve custos que nem sempre são viáveis ​​para as famílias.

Outra beneficiada foi Kokoa Kamaiwra Karajá, de 62 anos, que conseguiu avançar no processo de retirada da aposentadoria após tentativas frustradas fora da aldeia. "Eu já tinha tentado antes e não consegui. Agora deu certo, é só esperar", comemorou.

O defensor público de Mato Grosso José Edir Martins Júnior ressaltou que ações como essa vão além do atendimento individual. "Muitas vezes, a população nem sabe que possui determinados direitos. Quando levamos orientação jurídica até a comunidade fortalecemos o sentimento de cidadania e promovemos a inclusão", destacou.

O projeto Defensorias do Araguaia segue para Aldeia Itxalá, no município de Santa Terezinha (MT) com atendimentos integrados nas áreas jurídica, previdenciária e social,