A cobrança por políticas públicas e a garantia de direitos essenciais, como moradia, saúde e trabalho, motivaram uma mobilização até a Prefeitura de Cuiabá nesta quarta-feira (19), Dia Nacional de Luta da População em Situação de Rua.
O grupo, formado por pessoas em situação de rua, ativistas e defensores públicos, seguiu da Praça Alencastro até o Palácio Alencastro para protocolar uma carta formal com as reivindicações.
A caminhada marcou o encerramento da 5ª edição do Rualogia, projeto promovido pela Defensoria Pública do Estado de Mato Grosso (DPEMT), por meio do Grupo de Atuação Estratégica em Defesa da População em Situação de Rua (Gaedic Pop Rua), que busca ampliar o debate sobre cidadania.
Mais do que formalizar pedidos, a entrega do documento representou uma tentativa de aproximar as demandas diárias dessa população das instituições responsáveis pela formulação e execução das políticas públicas.

Para Rúbia Cristina de Jesus Silva, coordenadora estadual do Movimento Nacional da População em Situação de Rua (MNPR) em Mato Grosso, a mobilização é uma forma de fazer com que essas demandas sejam consideradas pelo poder público.
“Se a resposta não vier, a gente vai cobrar”, afirmou. Segundo Rúbia, ocupar os espaços públicos também é uma maneira de enfrentar a invisibilidade vivenciada pela população em situação de rua.
“Infelizmente, a sociedade faz de conta que não nos vê. Somos um povo invisibilizado, marginalizado, criminalizado. Estamos aqui para mostrar que temos direitos”, destacou.
A defensora pública Jacqueline Gevizier Rodrigues Ciscato, coordenadora do Gaedic Pop Rua, explicou que o Rualogia busca dar visibilidade às demandas das pessoas em situação de rua.
“Assim como aconteceu na Praça da Sé, em Mato Grosso as pessoas são ameaçadas, violentadas, constrangidas diariamente pelo simples fato de estarem em situação de rua. A Defensoria Pública é parceira e está aqui para resguardar os direitos dessa população”, ressaltou.

Dia Nacional de Luta – Celebrado em 19 de agosto, o Dia Nacional de Luta da População em Situação de Rua remete ao Massacre da Sé, ocorrido em 2004, na região da Praça da Sé, em São Paulo. Na ocasião, sete pessoas em situação de rua foram brutalmente assassinadas.
A data tornou-se um marco de mobilização pela defesa dos direitos dessa população e pela construção de políticas públicas capazes de enfrentar a exclusão social e garantir acesso a serviços essenciais.
Em Cuiabá, a mobilização promovida pelo Rualogia buscou justamente transformar as reivindicações apresentadas ao longo da programação em uma agenda concreta de diálogo com o poder público.
A caminhada até a Prefeitura reforçou esse propósito: levar a voz das ruas para dentro das instituições e cobrar respostas para problemas que fazem parte da rotina de quem vive em situação de rua.
O secretário nacional do MNPR, Darci da Silva Costa, reforça que a pauta central continua tragicamente básica.
“Chega de chacina. Chega de maltratar quem está na rua. Nós queremos moradia, trabalho, renda, saúde e educação. Queremos ocupar a sociedade como qualquer cidadão”, pontuou.

Os rostos por trás das estatísticas – Se as pautas são coletivas, as dores são individuais e têm nome, rosto e trajetória.
É o caso de Luiz Gonzaga Nezinho, de 74 anos.
Potiguar de nascimento, mas mato-grossense de coração: “Eu amo Cuiabá”, faz questão de dizer, ele já viveu os aplausos do teatro e do circo, o suor do trabalho como peão de boi e a emoção de ter suas composições gravadas por artistas profissionais.
Hoje, a voz já embargada pela idade narra uma realidade dura nas calçadas. “Eu não quero mais viver essa vida no papelão, no meio da sujeira e da discriminação”, desabafou, criticando também a superlotação e a rotatividade das casas de acolhimento locais.
Apesar do cansaço, a cidadania de Luiz não ficou no passado. Com o título de eleitor em mãos, ele sabe do seu peso no processo democrático e exige escuta: “Gostaria que essa nossa fala chegasse às autoridades competentes”.

Rede de apoio e acesso a direitos – A ponte entre a rua e os gabinetes tem sido construída com o apoio da Defensoria Pública.
Por meio do Gaedic Pop Rua e da Escola Superior (Esdep-MT), a instituição transformou os dois dias do Rualogia em um espaço de escuta ativa e letramento sobre direitos fundamentais.
A defensora pública Jacqueline Gevizier, coordenadora do Gaedic Pop Rua, destacou a urgência de combater a violência institucional e social.
“As pessoas são ameaçadas e constrangidas pelo simples fato de não terem teto. Estamos na praça para dar visibilidade a isso e resguardar direitos”, afirmou.
Para o diretor da Esdep-MT, defensor público Fernando Soubhia, o evento cumpriu seu papel ao transformar informação em mobilização prática.
“O primeiro dia foi de troca de experiências e resistências. Hoje, foi o dia de pôr tudo isso em prática, honrando a memória daqueles que ficaram para trás na luta.”
Reconhecido nacionalmente com o segundo lugar no Prêmio Boas Práticas PopRuaJud do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em 2024, o Rualogia prova que a Justiça só é efetiva quando desce os degraus dos tribunais e pisa no asfalto, reconhecendo que, por trás de cada pessoa em situação de rua, há uma vida, uma história e direitos fundamentais que não podem ser negligenciados.